sábado, 22 de janeiro de 2011

Poema da Pobre Humaitá-AM

Poema da Pobre Humaitá
                                                   

Humaitá, minha estimada cidade...
Para que serve teu barrento rio?
Reservatório de azougue?
Ou plana estrada onde transitam
Indiferentes balsas carregadas de árvores mortas?                       
Tuas falhas florestas sem folhas, teus tratores vorazes...
Por que te agridem, ó acolhedora cidade?
Teus anciões deitados em saudosas redes
Lembram de uma Humaitá mais religiosa,
Mais respeitosa e diremos até mais medieval,
Quando o povo sem senso-crítico concordava cegamente
Com a homilética sofística e bela de antigos governantes arbitrários
E insensatos, ultrapassados, mas que insistem em permanecer.
Época em que bois-bumbás do seu Caó, João Tavares e Luis Nina
Com seus índios guerreiros, vaqueiros e catirinas,
Tiravam o sono dos pais das meninas, que não raramente
Embuchavam-se nas livres noites de brincadeiras folclóricas,
De longos amassos, paixões e quebraduras;
Obrigando a dona Nega a pegar desmentidura
Ou o seu Beijoca a fazer suas benzeduras.
Lembra dos dias em que ia ao porto do seu Zaca
Esperando na beira do Madeira teus heróis pescadores?
Trazendo o pão-de-cada-dia em canoas abarrotadas
De esperanças prateadas!
Por que te agridem, ó minha querida cidade?
Do caboclo inventando de tomar tererê ou chimarrão,
Do irmão sulista experimentando tacacá com camarão,
Da loura que se apaixonou pelo negro,
Da negra que se apaixonou pelo índio,
Que resultou nesse sincretismo cultural.
Da harmonia de raças? Do respeito mútuo sem igual?
Do churrasco com cerveja, do tambaqui com tucupi,
No fundo de algum quintal do bairro da Olaria ou do São Pedro.
Da roça que nos dá a macaxeira do Caxiri...
Tchês, ulhajás, e uais, vivendo numa infinda paz,
E a nossa verdadeira origem trancafiada na CASAI.
O beijo de moça e o salgado incomparável da dona Júlia...
Do vereador iletrado, imbatível!
Prova de que a imaturidade política
Ainda prevalece, em tempos de claridade e sonhos,
Temperada de paternalismo recompensado
Que cobra dos mais leigos a lealdade eleitoral.

Acorda, minha Humaitá, não cochila!
Muitos querem te pegar pelo calcanhar.
Concubina de Aquiles, cobiçada e desrespeitada
Por homens sem moral, sem escrúpulos e sem decência.
Estão a te despir, cunhantã tão pequena.
Estão a passar a mão na tua Coxa Morena.
Não podemos mais deixar, ó depravada Humaitá!
Onde estão tuas crianças? No Centro do Menor não estão...
Talvez na 8ª DP, inimputáveis, depois de subirem “sem querer”
Numa bicicleta qualquer que “virou fumaça”,
Depois que se encorajaram em goles a mais de cachaça.
Sinal de progresso no visível retrocesso.
E muitos comemoram, outros rememoram
Tuas capelas devastadas, trilhas asfaltadas,
Ruas como a Matinha, dantes habitadas por seres fantásticos
Como o assobiador matintaperera.
Teu microclima... Teu clima mais quente... Já sentes a leseira.
Quem são os teus súditos, ó Princesa do Madeira?
Onde queres chegar, Humaitá?
Se a nova esperança surge em cima do lixo,
Se crianças brincam em meio a imundos bichos.
Cidade da 319, do Madeira, de todas as saídas;
Sente-se sem saída no seu pequeno grande caos.
Humaitá, irmã de Porto Velho e prima distante de Manaus.
Afinal que “navio-gaiola” te trouxe?
Quem te iludiu que o Paraíso fica logo ali?
Mas restou-nos na Santa Conceição a fé,
Dar um humilde ósculo no anel do Dom José.
O mangabal sem mangabeiras...
Barrancos onde se escondiam Cobras Grandes,
Bares lotados com alguns bebuns mais exaltados,
O banho do 12 , do 20 ou do Ipixuna...
Festa na BR, quando não há um acidente mais trágico,
Fuga de um prenúncio de tédio sabático
Ou das lojas berrantes em dias úteis na Avenida 5 de setembro,
De propagandas apelativas, (chamativas!)
“Melhor pro consumidor”, cada vez mais desatento!
E um hospital de meia-dúzia de funcionárias mal-humoradas,
Descontando suas frustrações em gente simples, que corre
Atrás do seu direito básico. Sem voz, sem saúde. Só a esperança!
Mas a Kombi branca solidária do Xexéu, que junto
À caridade popular, faz-me acreditar num socialismo-cristão,
Que ameniza voluntariamente o descaso da saúde pública,
Pois a união é capaz de transformar qualquer caos instalado
Em esperança, e devaneios utópicos possíveis,
Numa uma sociedade mais justa e igualitária.

O que fizeram contigo, Humaitá?
Teu igarapé do Beém emporcalhado por excrementos
De privadas submersas.  As tuas ruas sem verde, sem cor...
És ingrata ao teu povo tão “educado” e “sonhador”?
Teu católico supersticioso não acredita mais em ti.
Teu evangélico convicto espera morrer para encontrar vida melhor.
A galinha preta que estava em uma dessas encruzilhadas
Foi devorada numa bocada só, numa ceia especial num lar pobre,
Onde só se come mandii, pescado lá na “Espalhadeira ‘Fome Zero”.
Os pequenos pés sujando a escola de lama vermelha, cor do coração.
Dádiva de algum bairro mais distante da fachada.
Salvai-nos, São Sebastião!
Tua juventude alienada e quase perdida...
Tua cara, por vira-latas, lambida.
A impingem, o piolho, a lombriga;
Quase nada, diante do roncar da frágil barriga.
Olhos famintos e o estômago pensativo.
Como prova de amor dar-te-ei um bom livro.
Tu precisas te alimentar, ó minha inculta Humaitá!
Transformar em ação toda essa insatisfação!
Teu “helenismo amazônico”, teus peregrinos da educação,
Faz-nos acreditar na tua regeneração, ó pobre meretriz!
Pois se o povo quiser, um dia serás mais feliz!
Hoje parece não haver amanhã...
Ontonte nós era muito mais crente!
Mas, como arredio e bravio Pirahã,
Diga “NÃO” às mentiras, povo humaitaense.
A que tipo de progresso estamos dando relevância?
Humaitá não estanca a sangria, não há respeito à cidadania,
No entanto ainda há esperanças. Sim, ainda há!
Desperta, minha amada Humaitá!
Desperta, ó pobre Humaitá!

(Junivaldo Sá de Lima)
Escrita às vésperas do aniversário da minha terra natal, em maio de 2007

3 comentários:

mai disse...

Muito bom, amigo postar essas poesias desse verdadeiro artista que há muito já merece o reconhecimento. Conheço-o e sou sua fã. Abçs e parabens.

JOAO BOSCO LOTTO HOLANDA disse...

Excelente! Como o amigo falou: trata-se de um "verdadeiro artista"! Parabéns! João Bosco Lotto Holanda.

Anônimo disse...

Vi em outro site algo a respeito desse rapaz. E descobri que havia uma publicação sua aqui além de outras como "críticas de um cabôco", em outros sites. vou reforçar oq eu já foi dito acima, é um verdadeiro artista. vamos fazer algo por esse garoto, já é sabido que ele tem centenas e centenas de textos sem igual... bjs