sábado, 5 de novembro de 2011

POEMA - Dois de Novembro


Por Junivaldo Lima
                                                                                       2 de novembro 2011


Não vou acender vela hoje

Tenho amanhã para lembrar os meus mortos

Os seus sonhos, suas dores, seus caminhos tortos.

Hoje é dia dos finados,

Determinaram um dia para que eu possa lembrá-los

Acender suas velas,

Derramar minhas lágrimas por causa de hoje

Coroar de flores seus túmulos

Entristecendo ainda mais a paisagem

Imaginar seus espíritos a desfrutar de coloridas viagens.


Não, eu não vou ao cemitério hoje

Seguir a procissão de hipócritas

Obedecendo a uma data como que robôs sentimentais

Pranteando seus entes queridos só lembrados na data

Sugerida por sei lá quem

Programados para se comover no dia 2 de novembro.

Os mortos estão mortos, pálidos e inertes

Do contrário arrancariam suas lápides sufocantes

Achariam graça de toda essa liturgia

Mas estão presos e não saem, sem tristezas sem alegrias...


Pensei comigo “como é cômico o nosso preconceito. Trágico!

Logo nós que somos miscigenação!

Refutando rituais indígenas, caçoando de seus costumes,

Mas seguindo semelhantes tradições.

Afinal, o que nos torna melhores?

Nossas velas? Nossos santos? Nossas flores?

Nossos mortos estão tão enterrados quanto os deles!”

Somos compostos das mesmas esperanças.


Observei estático de longe aquele fluxo incrível de pessoas

Vi barracas de cachorro-quente no cemitério,

Vi ônibus conduzindo os transtornados,

Vi o casal que flagrei certa noite trepando num daqueles túmulos,

Vi o homem que capina de raro em raro o campo-santo

Sempre na época de maior visita, inclusive as mais ilustres.

As cruzes são testemunhas

Das rezas indiferentes, das flores artificiais

Das chamas do fogo das velas sombrias,

Das lágrimas de crocodilo...


Não, eu não quero que me acendam velas.

Quero antes repousar experimentado o vazio absurdo

Tão cheio de mistérios que a indesejada há de me proporcionar,

Longe das multidões que choram para ficar em paz

Com suas próprias consciências, para não sofrer com a tortura moral.

Quero lembrar espontaneamente de meus entes queridos

E já que não sou Deus com o poder de ressuscitá-los,

Quero manter a esperança

De, num dia, no mais improvável, reencontrá-los,

Num desses dias em que acordo acreditando em vida eterna.


Não, hoje eu não vou ao cemitério.

Os mortos não precisam dos nossos desejos, de impérios.

Os mortos já não precisam de mim.

E depois de tudo consumado,

Eu não quero ser visto como um pobre coitado,

Não. Eu não quero ser lembrado no dia dos finados.

Os mortos não têm dias, já foram todos cremados.


Fonte: O Curumim