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Não vou acender vela hoje
Tenho amanhã para lembrar os meus mortos Os seus sonhos, suas dores, seus caminhos tortos. Hoje é dia dos finados, Determinaram um dia para que eu possa lembrá-los Acender suas velas, Derramar minhas lágrimas por causa de hoje Coroar de flores seus túmulos Entristecendo ainda mais a paisagem Imaginar seus espíritos a desfrutar de coloridas viagens. Não, eu não vou ao cemitério hoje Seguir a procissão de hipócritas Obedecendo a uma data como que robôs sentimentais Pranteando seus entes queridos só lembrados na data Sugerida por sei lá quem Programados para se comover no dia 2 de novembro. Os mortos estão mortos, pálidos e inertes Do contrário arrancariam suas lápides sufocantes Achariam graça de toda essa liturgia Mas estão presos e não saem, sem tristezas sem alegrias... Pensei comigo “como é cômico o nosso preconceito. Trágico! Logo nós que somos miscigenação! Refutando rituais indígenas, caçoando de seus costumes, Mas seguindo semelhantes tradições. Afinal, o que nos torna melhores? Nossas velas? Nossos santos? Nossas flores? Nossos mortos estão tão enterrados quanto os deles!” Somos compostos das mesmas esperanças. Observei estático de longe aquele fluxo incrível de pessoas Vi barracas de cachorro-quente no cemitério, Vi ônibus conduzindo os transtornados, Vi o casal que flagrei certa noite trepando num daqueles túmulos, Vi o homem que capina de raro em raro o campo-santo Sempre na época de maior visita, inclusive as mais ilustres. As cruzes são testemunhas Das rezas indiferentes, das flores artificiais Das chamas do fogo das velas sombrias, Das lágrimas de crocodilo... Não, eu não quero que me acendam velas. Quero antes repousar experimentado o vazio absurdo Tão cheio de mistérios que a indesejada há de me proporcionar, Longe das multidões que choram para ficar em paz Com suas próprias consciências, para não sofrer com a tortura moral. Quero lembrar espontaneamente de meus entes queridos E já que não sou Deus com o poder de ressuscitá-los, Quero manter a esperança De, num dia, no mais improvável, reencontrá-los, Num desses dias em que acordo acreditando em vida eterna. Não, hoje eu não vou ao cemitério. Os mortos não precisam dos nossos desejos, de impérios. Os mortos já não precisam de mim. E depois de tudo consumado, Eu não quero ser visto como um pobre coitado, Não. Eu não quero ser lembrado no dia dos finados. Os mortos não têm dias, já foram todos cremados. Fonte: O Curumim | |||
sábado, 5 de novembro de 2011
POEMA - Dois de Novembro
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Poemas e Poesias
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